Comemoração
do 1º centenário do fontenário e
lavadouro da Pêga
(10 de Maio de 2008)
Programa
9h30 - Arruada com Bombos de Alquerubim
na zona do Alboi, Bairro da Misericórdia e Rua
da Pêga.
10h30 - Reconstituição
das Vivências do Lavadouro e da Fonte da Pêga,
durante os dois, primeiros quartéis, do século
XX (a decorrer simultaneamente na Fonte, Lavadouro e
zona envolvente).
Cenário:
Assiste-se a um grande movimento
na Fonte e no Lavadouro.
A caminho da Fonte da Pêga,
por um trilho estreito de terra batida, marnotos, moços,
salineiras, soldados do Quartel do Regimento de Infantaria
de Aveiro e mulheres oriundas da zona da Praça
do Peixe, do Bairro do Alboi, da Rua do Cabouco (actual
R. Calouste Gulbenkian), das Cinco Bicas e do Bairro
da Misericórdia, dirigem-se à fonte, fazem
fila e abastecem as suas jarras, canecos de madeira
e de barro vermelho e os barrizinhos de madeira de água
da nascente, que não é paladosa, mas é
o que há para uso doméstico e para matar
a sede, enquanto outras mulheres fazem filas para lavar
as roupas (testemunho de Almerinda da Silva Neves Ferreira,
74 anos, ex-moradora da Rua do Cabouco, actual R. Calouste
Gulbenkian). Por vezes as aguadeiras esperam na fila
até à uma da manhã, para recolherem
a água da bica, enquanto isso, por lá
aparecem homens embrulhados em lençóis
brancos, são os fantasmas que lhes causam medo.
São os vizinhos, na paródia. As aguadeiras
depois de encherem os canecos apregoam a água:
Bilha e Água (testemunho de Ana Rosa Dias, 84
anos, ex-moradora, na Rua da Pêga) e vendem-na
a 5 tostões ou a 1 tostão o caneco e a
2 tostões, o barril, no centro da cidade (testemunho
de Elisa do Carmo Sousa, 79 anos, então aguadeira
e lavadeira e ex-residente da Rua da Pêga).
As lavadeiras essas com as celhas
e as bacias de zinco, de fundo de madeira à cabeça;
de lenço ao pescoço, vestido riscado ou
popelina ou de saia escura, de padrão liso ou
às riscas, abaixo do joelho, ou compridas; com
blusa de botões, de estampados fortes e gola
virada e avental de chita, às riscas ou aos quadradinhos;
com meias de lã coloridas, feitas à mão;
descalças ou de tamancos com protectores de metal,
vêm carregadas de roupa que vão lavar à
Fonte. Por vezes, estas mulheres trazem consigo também
um pequeno lanche, constituído por broa de milho,
peixe frito, azeitonas e figos pingo de mel, assim como,
um pequeno candeeiro de petróleo. As lavadeiras
trazem consigo sabão de barra azul embrulhado
em papel pardo, comprado na viúva do Ricardo
(que se localizava junto ao local onde se situa hoje
a Pastelaria Veneza), uma escova pequenina de piaçá
e madeira, comprada na Vassoureira Aveirense, na Rua
Agostinho Pinheiro, para lavar as calças; um
regador de chapa; o cloreto em pó e as pedrinhas
azuis de anil que compram ao Plino, na taverna do Alboi,
ou nas drogarias do Zé Ferreira (na antiga Casa
Martelo), ou à viúva do Domingues Leite
(onde hoje se situa o BPI) (testemunho de Ana Soares
Maia, 89 anos e de Ana Rosa Dias, 84 anos, outrora ambas
residentes na Rua da Pêga) ou então ao
Alberto Rosa (drogaria que se situava no edifício
do antigo Hospital da Misericórdia).
Muitas das mulheres vêm de madrugada
lavar, iluminadas por um candeeiro para encontrarem
água limpa, ou arranjarem um lugar no lavadouro,
que é sempre difícil, assim como para
apanharem os restinhos de sabão que ficam no
fundo do tanque, que dão sempre jeito para lavar
as peças de roupa mais pequenas. As lavadeiras
que desde o raiar da aurora lavam, regressam agora a
casa envergando a bacia de zinco, cheia de roupa torcida,
sobre rodilha, vão agora pô-la a secar
em casa. Outras como a roupa é muita e a fome
aperta sentam-se nos beirais do tanque e comem.
No coradouro junto às marinhas
e no estendal há grande animosidade. O movimento
é intenso na fonte e a água é parca
no Verão, só de Inverno é que abunda.
Por trás da fonte, zona de laranjeiras e chorões,
a Cai Sara, dorme embriagada (Testemunho de Rosa Augusta
Cirino, 79 anos, ainda moradora na Rua da Pêga)
e sobre um muro, durante a noite por vezes aparecem
abóboras meninas, sem miolo, com olhos e boca,
iluminadas nos seus interiores por uma vela, são
as Almas Perdidas.
Num dos tanques do lavadouro há
mulheres que de joelhos sobre a terra, porque a pia
é baixa, sacodem a roupa, na água, para
lhe tirarem o sabão (testemunho de Ana Rosa Dias,
84 anos, outrora moradora, na Rua da Pêga); outras
sobre a pedra esfregam e batem a roupa, depois das peças
de roupa terem estado em sabonária e anil; outras
passam a roupa branca, por água limpa na biquinha,
depois de esta ter estado em cloreto ou a corar com
sabão na erva; outras ainda torcem a roupa que
colocam nas bacias para porem a secar em casa ou no
arame, junto às marinhas, ao longo da Rua da
Pêga. Enquanto isso, outras mulheres molham os
cobertores, passam-lhe sabão azul de barra, colocam-nos
na bacia, amassam-nos com os pés, esfregam-nos
na pedra e passam-nos por água limpa, outras
ainda de escova de piaçá na mão,
esfregam os tapetes de trapo e as passadeiras feitas
de sacos de serapilheira abertos provenientes da moagem,
e que põem a secar depois no coradouro (testemunho
de Almerinda da Silva Neves Ferreira, 74 anos, ex-moradora,
na então Rua do Cabouco).
A maioria das mulheres lava para si
própria, como a Mafalda e a Glória, mas
outras há que lavam para fora, como a Elisa que
lava para a Maria dos Anjos e para a Lurdes, dos Santos
Mártires, que lhe levam a roupa, passadeiras,
balde, sabão e escova a casa. A Ti Albertina
justa ao mês a 5 ou 10$00 a bacia da roupa, às
5 da manhã ou à noite, lava a sabão
para a Pensão Palmeira e para a D. Rosa, a cabeleireira
da Rua do Gravito e a Ana Soares lava para a D. Alice
Pedrosa. Lavam a 5 tostões cada peça,
excepto as passadeiras que são a 7$50. A lavadeira
põe do seu bolso, o sabão e o cloreto.
Quem usa cloreto já não põe a roupa
a corar e vice-versa, se a puser a corar tem que a ir
regando com água limpa, com um regador de chapa,
com ralo. O anil é posto num pequeno pano branco,
dá-se um nó ou ata-se com um fiozinho,
molha-se o bonequinho e passa-se pela roupa, deixando-a
com raiozinhos azulados (testemunho de Ana Soares Maia,
89 anos, ex-residente da Rua da Pêga). A Maria
Albina da Rua Direita, lava aqui o dia inteiro, mete
a saia no meio das pernas e os filhos dentro de um caixote
de madeira e à hora do almoço, o marido
leva-lhe a panela de sopa, à lavrador, com um
naco de carne (carne gorda) e dá aos filhos,
e comem todos à beira da maré. Depois
de lavada a roupa, a Maria Albina estende-a em arame
junto às marinhas, defronte dos lavadouros. Depois
de seca a roupa apanha-a e coloca-a dobradinha dentro
da peça maior, dá-lhe um nó e leva-a
à cabeça, para a casa. A Maximina, a Ti
do Padeiro e a Ti Albertina, todas elas tinham o seu
próprio arame.
Em frente ao largo, descalços
vêem-se os miúdos, a garotada a brincar,
de calças de fundilhos e abarozes (suspensórios)
a segurá-las, correm descalços na erva
e na terra batida do largo da fonte. Os soldados; a
garotada que vai a banhos para o Poço de S. Tiago
(A praia dos pobres ou dos tesos), aprender a nadar;
os pescadores de cabra, os marnotos e os moços
animam muito o local, sobretudo no período da
Páscoa e no Verão. De Inverno é
a rua do Lá Vai Um (testemunho de Elisa do Carmo
Sousa, 79 anos, residente na então Rua da Pêga).
Os garotos que por ali passam a pé ou de bicicleta,
de camisolita e calções de meia perna,
roubam as toalhas que estão a secarem, nos arames,
junto às marinhas. Os soldados esses, uns passam
a marchar, outros rastejam e correm junto às
tramagueiras, outros ainda entram dentro dos viveiros
das marinhas de sal, onde abundam solhas, linguados
e enguias e o povo e a canalhada costuma apanhar, e
cheios de lama com a água pela cintura, ou mesmo
pelo peito, aprendem atirar tiros (testemunho de Maria
Aurora de Oliveira, 78 anos, outrora residente na Rua
da Pêga), um dizia: "Oh, senhor capitão,
eu não sei nadar!", e o capitão respondia:
"Ai, vais, vais! e de repente o soldado ficou com
água até meio do peito".
Neste lugar ouve-se o rugir das rodas
dos carros de bois que passam para lavrar os campos
vizinhos e assiste-se a ralhos entre as mulheres, algumas
batem-se entre si porque alguém sujou a água
limpa, com a roupa escura; ou com roupa mais suja; ou
então, por causa da vez; por vezes discutem também
com os homens que andam à serradela e que querem
lavar-se na bica ou no lavadouro sujando as águas
(testemunho de Alice Crespo, 75 anos, ex-moradora da
Rua da Pêga e de Almerinda da Silva Neves Ferreira,
74 anos, ex-residente na então Rua do Cabouco).
O local é animado por poesias;
cantigas e discussões das lavadeiras; por quem
namora e dorme atrás da fonte; pelas vendedeiras
de hortaliças; pelas vendedeiras de louça
de barro vermelho e preto, cujas peças são
vendidas a 10 tostões cada uma; pelas padeiras
que de lenço de franja, à minhota, saias
de algodão estampadas, canastra à cabeça,
tamancos e meias de lã de Inverno, feitas à
mão, vendem o pão de Vale de Ílhavo;
ou por aquelas, que vendem o pão, de bicicleta,
com as canastras de lado; pelas leiteiras, com os canecos
de alumínio, de cada lado, vendem o leite; pelos
carros de bois que passam e pelas crianças que
jogam à bola de trapos, à macaca, à
corda, ao arco e ao esconder (testemunho de Ana Rosa
Dias, 84 anos, ex-moradora da Rua da Pêga e de
Albertina de Jesus, 76 anos, ainda moradora na então
Rua do Cabouco).
Os figurantes trajam à
época.
Nesta iniciativa estão envolvidas,
as seguintes associações culturais: Grupo
Cénico Cantares da Ria, Rancho Folclórico
do Baixo Vouga, Rancho Folclórico do Rio Novo
do Príncipe e Grupo Animador, Cultural e Etnográfico
da freguesia de Requeixo.
12h30 - Almoço convívio
para os participantes no evento.
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